No campo do lazer e da vida social, as fanfarras e bandas de música sempre foram protagonistas da alegria nas vilas — e, em Joaíma, não foi diferente. Eram elas que davam o tom das celebrações, marcando presença em eventos religiosos, sociais e históricos.
Para anunciar o início das festividades, cumpria-se a tradicional Alvorada: um verdadeiro espetáculo de sons e cores que despertava a cidade. Os músicos desfilavam pelas ruas, marchando com elegância, trajando uniformes impecáveis e empunhando instrumentos reluzentes. Tubas, pratos e cornetas ecoavam com força, enquanto fogos e rojões estouravam no céu, chamando o povo. Era impossível não se emocionar — gente saía às pressas de suas casas para ver a banda passar, num misto de encantamento e pertencimento.
Mas a banda não se fazia presente apenas nos momentos de alegria. Também acompanhava os instantes de despedida. Nos cortejos fúnebres, seguia em passo lento, executando marchas carregadas de sentimento, em um lamento profundo que traduzia a dor da partida.
Houve um tempo em que Joaíma contava com duas bandas, refletindo inclusive as divisões políticas da época. Uma era mantida pelo Major Camilo Miranda; a outra, dirigida por Clemente Bonfim, o inesquecível “Quelezinho”. Cada banda acompanhava seus respectivos grupos, inclusive nos funerais, evidenciando como a música também dialogava com a realidade política local.
Foi nesse contexto que surgiu uma figura fundamental para a história musical do município: Licínio de Castro. Dotado de grande sensibilidade artística e domínio de diversos instrumentos, ele fundou a “Banda de Música Joaíma”, que rapidamente ficou conhecida pelo apelido marcante de “A Furiosa”.
Sob sua liderança, a banda reuniu músicos de destaque, verdadeiros talentos que marcaram época: o maestro Cesarino Ituassu; seus filhos Mozart (violino) e Rossini (trompete); Clemente Bonfim, o “Quelezinho”, no trombone de vara; Geraldo Oliveira, no clarinete; José Paturi, no piston; José Coelho, ao lado de seu filho João Coelho e de Crislônio Dias do Vale, exímios saxofonistas; além de Lero, nos pratos; Tonico de Dona Amélia, no banjo e violão; e Dego, no pandeiro.
Esses nomes não apenas tocaram instrumentos — eles construíram uma tradição, deram vida à cultura local e ajudaram a eternizar a música como parte essencial da identidade de Joaíma.
Também integraram esse seleto grupo os maestros Rei — um baiano de presença marcante, negro e forte —, Gentil Souza Castro, irmão de Licínio, e Zezé, seleiro de profissão, que se destacava no trombone. Cada um, à sua maneira, contribuiu para enriquecer ainda mais o legado musical que se consolidava em Joaíma.
Com o passar do tempo, alguns desses talentos ganharam novos horizontes. Mozart, por exemplo, seguiu para o Rio de Janeiro, onde construiu uma trajetória de destaque, alcançando reconhecimento ao se apresentar no renomado Teatro Municipal — um feito que elevou ainda mais o nome da música joaimense.
Anos depois, já em 1962, movido pelo desejo de preservar essa rica herança cultural, o então prefeito Domingos Ornelas decidiu prestar uma justa homenagem ao seu saudoso amigo Licínio de Castro. Liderando um movimento de mobilização, iniciou a arrecadação de recursos com o objetivo de resgatar a Filarmônica de Joaíma.
Demonstrando compromisso e visão, o prefeito deslocou-se até São Paulo, onde adquiriu novos instrumentos musicais, possibilitando a recriação da banda. Assim, renascia oficialmente a corporação musical, agora sob o nome de “Filarmônica Licínio de Castro”, em tributo àquele que tanto contribuiu para a cultura local.
A nova fase teve início sob a regência do maestro Eleotério Patente, marcando mais um capítulo de renovação, continuidade e valorização da tradição musical do município.
A partir de então, a Filarmônica Licínio de Castro passou a ocupar lugar de destaque nas grandes confraternizações do município, tornando-se símbolo vivo de celebração e desenvolvimento.
Mais do que uma banda, ela se transformou em mensageira do progresso — anunciando, por meio de seus acordes, novos tempos para o povo joaimense. Onde havia conquistas, inaugurações ou momentos marcantes, lá estava ela, presente, abrilhantando cada ocasião com sua música vibrante e sua identidade cultural inconfundível.
Assim, a Filarmônica consolidou-se não apenas como expressão artística, mas como parte essencial da própria história e evolução de Joaíma.


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